segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Segundo dia - NORTEA - Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste

Peço desculpas aos leitores que aguardaram as novidades do encontro. Prometi enviá-las em tempo (quase) real, mas o tempo ocupado pela quantidade e qualidade dos trabalhos, comprometeu minha promessa.

Segue o texto do segundo dia e em breve os outros...





Segundo dia do NORTEA


Demonstração de trabalho do TOTEM(PE) e do Carlos Simioni (LUME-SP), assim começamos a manhã. Claro que estávamos todos ansiosos para ver o grande (Simi), mas, a possibilidade de compreender melhor um processo de trabalho tão iconográfico para mim, dentro do meu contexto territorial, como é o caso do primeiro citado, me deixou particularmente expectativa. Com 20 anos de existência, tem suas criações e pesquisas calcadas na performance do ator. Nasceu na década de 80, oriundo do grupo Trem Fantasma. O grupo TOTEM mescla linguagens artísticas diversas como a música instrumental, as artes visuais, a dança, o teatro, a filosofia e a literatura. Neste hibridismo de possibilidades a performance surge como elemento agregador e está fortemente presente em suas criações, seja numa intervenção urbana, seja num espetáculo concebido para um palco à italiana. Estavam presentes, de seus integrantes, Fred Nascimento (Diretor e Fundador), Lau Veríssimo (Atriz/Fundadora) e Aracely Silva (Atriz). Mostraram-nos vídeos de seus trabalhos e aplicaram um jogo, onde os demais poderiam participar (claro que fui uma das voluntárias). Em um dos exercícios nos foi pedido que pegássemos um objeto qualquer com o qual tivéssemos uma relação de apego. Colocamos os objetos num canto da sala e ficamos de frente pra eles, do outro lado do espaço. Em seguida teríamos que nos direcionar ao objeto, mas como se algo (uma força) nos impedisse de chegar até lá, ao chegarmos, nos relacionamos com o mesmo e depois o largamos, voltando para onde estávamos. Segundo o grupo o objetivo é trabalhar a “tensão”. Porém, a tensão é trabalhada de maneira artificial (sobretudo na caminhada), deixando o ator livre para guiar seu trabalho com imaginação, o que pode ser positivo, porém, pode descarrilhar a intensidade do trabalho corporal, ficando o exercício na psicologia da ação e não no seu registro corporal. Confesso que me foi um pouco frustante, no aspecto “desvelamento técnico”, ainda continuo com as mesmas dúvidas, na verdade talvez um pouco mais confundida, pois mais uma vez vejo claramente um trabalho corporal, porém não de forma objetiva, como se a ligação entre corpo e mente fosse guiada pela presença primordial da inteligência (intelecto)... calma, vou parar por aqui, não quero ser injusta, muito menos construir uma idéia errônea. O TOTEM mostrou seu trabalho e nos encantou com suas proposições ousadas. Porém, penso que a inteligência corporal ainda é trabalhada em segundo plano, ao menos no trabalho apresentado. E esta é sem dúvida uma das “armadilhas” da demonstração de trabalho.

Seguimos com Simioni, o mestre de muitos mestres. Simi nos mostrou sua trajetória, a construção paulatina de sua maestria corpórea, passando por Burnier (ver A Arte de Ator, Luís Otávio Burnier), que fundou o LUME o qual, junto com Ricardo Puccetti, deu continuidade, esbarrando em Iben Nagel-Rasmussen, com quem convive até hoje no Ponte dos Ventos, coletivo que se reúne anualmente, na Dinamarca, confluindo para o trabalho com Tadashi Endo, que dirigi seu último espetáculo.

O que vemos é o exemplo de um treinamento que envolve ao mesmo tempo físico e emocional. Uma bela possibilidade de encontro harmonioso entre estes hemisférios. A partir de tensões musculares, retenção e expansão de movimentos envolvendo os músculos da face, além de todo o corpo, um cem número de personagens e histórias se revelam. As matrizes desenvolvidas no treinamento são codificadas e ganham nomes próprios, para colaborar com a memorização. Faz-se assim uma transição orgânica do treino para a cena.

A apropriação de várias técnicas, que levam a um desejo de desvencilhar-se delas, o que o faz cair em outra técnica.

Palavras do próprio Carlos Simioni:

“A imagem deve derreter no corpo do ator”

“Tentar desvencilhar-se da técnica é cair em outra técnica”

Intervalo às 12:30, ninguém se dá conta do horário, seguimos falando e falando, empolgados com a confluência de idéias. Precisamos do Luís para conduzir-nos de volta a realidade, onde os minutos configuram as horas e elas passam...

Voltaremos a tarde: Demonstração do Labô-Espetáculo!

E agora? Saio para o almoço pensando o que é o trabalho do Labô-Espetáculo, o que temos de novo, o que temos de inovador... Nada, sinceros ladrões que somos!  

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